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VIA-SACRA

Filho de Maria, “Jesus” nasceu no Tarumã e sonha em ser militar

Veja a história do garoto que encenará Jesus na Paixão de Cristo

19/04/2019 07h53Atualizado há 6 meses
Por: Zadir de Souza
Fonte: Correiodoestado
Um dos lugares mais acolhedores da moradia de “Jesus” tem o sinal da cruz; Vinícius será pregado, hoje, durante a encenação da via-sacra na comunidade católica que frequenta - Foto: Valdenir Rezende / Correio do Estado
Um dos lugares mais acolhedores da moradia de “Jesus” tem o sinal da cruz; Vinícius será pregado, hoje, durante a encenação da via-sacra na comunidade católica que frequenta - Foto: Valdenir Rezende / Correio do Estado

Maria vai derramar lágrimas hoje ao ver o filho pregado na cruz. O menino que ela criou dentro da igreja será julgado e morto no calvário, depois que Pôncio Pilatos “lavar as mãos” e deixar a multidão escolher o destino da figura que, na narrativa bíblica, veio para salvar a humanidade.

Filho de Maria de Lourdes, Vinícius Lino dos Santos, que já atuou como um dos bandidos pregados na cruz, será Jesus Cristo pela primeira vez na encenação que ocorrerá na tarde de hoje, na Paróquia Cristo Rei da Comunidade Cristo Bom Pastor, no Coophavila II, saída para Sidrolândia.

Jovem, pardo, de família simples, “Jesus” tem 19 anos e mora na mesma casa em que nasceu: um terreno compartilhado entre avós, tios e primos, no Bairro Tarumã. De pais divorciados, o garoto tem um irmão por parte de mãe e vários outros do mesmo pai. Apesar de ter feito teatro na comunidade da igreja desde os 14 anos, ele nunca teve aulas com profissionais das artes e sempre interpretou de improviso, à base de vídeos do YouTube. “É tudo nós que vemos e nós vamos elaborando com nós mesmos”, diz Vinícius. Ele terminou o Ensino Médio aos 16 anos, mas nunca ingressou na faculdade e atualmente está desempregado.

Nervoso pela estreia, Vinícius se nega a fazer qualquer comparação com o Messias. “Vixe, não tem como falar isso”, recua. Mas, quando questionado sobre ter alguma semelhança, por conta do ambiente onde foi criado (bairro ou região), ele responde: “Pode ser isso, moramos mais longinho de outros bairros”.

A importância de ser Jesus, para ele, está na demonstração das dores sofridas pelo Mestre. “Se pensar, hoje o mundo está desse jeito, com muitas mortes, assassinatos. Ele se matou por nós na cruz, e todo mundo, ainda hoje, não se importa com o que aconteceu. Se não fosse por Ele, não existiríamos”, contextualiza o intérprete. 

As encenações fazem parte da programação de Páscoa das igrejas desde sempre. Há até as grandiosas, com direção assinada por profissionais, iluminação e um palco estruturado. Longe de ostentar, Vinícius prefere a humildade. “Não adianta ter um monte de coisas benfeitas, um cenário perfeito, se a pessoa não sabe demonstrar a dor que Jesus sentiu”, acredita. 

Na escolha do intérprete da via-sacra, Vinícius não teve nenhum concorrente. “Por incrível que pareça, eu era o único para fazer o papel e, como eu já participava do teatro...”, admite. Foram só duas semanas de ensaio para chegar ao grande dia. 

Admirador da compaixão do militante Jesus de Nazaré, o rapaz fala que o que mais lhe desperta adoração é a simplicidade e o jeito como Ele tratou as pessoas. E que, se houvesse uma vinda d’Ele à terra hoje, Ele estaria insatisfeito com tudo e viria para pregar amor. “Ele falaria que você tem que amar o próximo como a ti mesmo; ensinaria tudo o que já ensinou e não deixaria acontecer essas coisas que estão acontecendo”. 

Vinícius vai se apresentar para moradores do Coophavila II, Tarumã e das imediações, como Jardim Pênfigo e Corcovado. Paralelamente à interpretação do Salvador, Vinícius espera ser chamado para a carreira militar. “Quero ser militar pelo fato de eles estarem bem-vestidos e protegerem nosso País; melhorarem as ruas”, justifica. 

Sobre os militares do Exército terem protagonizado os 80 disparos que terminaram na morte do músico e pai Evaldo Rosa dos Santos, no Rio de Janeiro, Vinícius afirma que tudo tem dois lados. “[Tem] o pior e tem o melhor dos lados. Eu sempre quero ir para o melhor possível do lado militar, da compaixão com os outros, mas sempre tem aquelas pessoas que só veem o lado mau”, opina. 

Ao se considerar uma pessoa simples, o jovem que fará o Messias resume que seu papel ali é o de deixar uma lição de amor e humildade de um Jesus que, para ele, é bem diferente dos pintados por aí. “Acho que Ele é meio moreninho, não é tão branco igual falam ou colocam nas imagens. Cara, Jesus foi uma pessoa normal, claro que a face d’Ele é maravilhosa, mas é a de um ser humano normal”. 

A encenação da via-sacra acontece hoje, a partir das 16h, na Rua dos Recifes, 435. 

 

  • Filho de Maria, “Jesus” nasceu no Tarumã e sonha em ser militar
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